domingo, 17 de fevereiro de 2013

Diário de Viagem Entrevista - Brasil, o retorno!

A volta de quem já esteve aqui!

Hoje damos início à um novo quadro aqui no Clube, o "Diário de Viagem Entrevista". Nele iremos trazer experiências de pessoas que viajaram para algum local, seja como turista ou como imigrante mesmo. Teremos Europa, Ásia, América, Oceania, de tudo um pouco! E para começar, um tema um tanto "delicado" para quem mora no Japão: retornar ao Brasil de vez! Como funciona isso? É o que iremos debater a seguir!



Brasil. Nosso país de origem, nossos costumes, nossa cultura, nossos valores, nosso lar. Muitos imaginam como é viver fora do Brasil, como se no exterior as possibilidades se tornassem infinitas e os desejos pudessem ser realizados a todo momento. Poder andar nas ruas sem medo, criar os filhos com segurança, construir uma nova história. Mas até onde? 
Se no início do século XX milhares de japoneses emigraram para o Brasil em busca de fortuna, agora o processo se reverte gerando uma comunidade tupiniquim na terra do sol nascente que chega atualmente a quase 225 mil imigrantes. Este número alcançou mais de 300 mil brasileiros no final do ano de 2008, segundo o Ministério da Justiça. Ir para o Japão antes era sinônimo de sucesso e aquisição de uma modesta fortuna. Hoje, a situação encontra-se bem diferente do cenário que os chefes de família se depararam no início dos anos 90. E o retorno à terra mãe tornou-se um verdadeiro martírio para muitos. Mas afinal, por que os dekasseguis não conseguem se adaptar ao contexto atual brasileiro? 


O perfil do dekassegui de hoje não tem nada a ver com o de gerações anteriores. É constatado através de pesquisas o menor nível instrucional diante das levas dos anos 80 e 90.  Hoje em dia, uma boa parcela dos brasileiros que estão no Japão não possuem o Ensino Médio completo e alguns nem mesmo o Fundamental. O doutor em Geografia  Humana da Universidade São Paulo, Ricardo Hirata Ferreira ressalta que ao analisar estudos de Sasaki (1998), Ferreira (2001) e outros, é perceptível que muitos dekasseguis ao retornarem encontram trabalho no Brasil, porém com uma remuneração não satisfatória aos padrões que estavam acostumados enquanto trabalhador no Japão.


Se inicialmente o Brasil era a nossa “casa”, e assim, os descendentes de japoneses enquanto brasileiros  ao retornarem ao seu país de origem estariam retornando ao “lar”, esta ilusão se desmorona quando as suas precárias certezas são postas em questão ao entrar em contato com o “novo Brasil”.  A identidade do dekassegui é posta à prova uma vez que seu perfil não se encaixa mais em nenhum dos cenários. O Japão não é seu lar e o Brasil já não é mais o mesmo. 



A questão do poder aquisitivo e sua relação direta com o consumo também é um fator preponderante que alimenta ainda mais a insegurança do dekassegui no retorno ao Brasil. Na pesquisa de doutorado, Brasil ou Japão: o “espaço de consumo” e a (re) inserção do dekassegui, de Ferreira (2001) é abordado a criação de necessidades pelo capitalismo e como isso afeta os consumidores de modo geral. Com os dekasseguis não seria diferente. Sendo um trabalhador, o dekassegui também é um consumidor. E a comparação torna-se inevitável quando se fala do que é possível adquirir no Brasil com um salário mínimo e o que se pode comprar no Japão com o salário médio mensal. Voltar para o Brasil significa também não poder mais comprar no raciocínio de muitos trabalhadores, não poder mais fazer parte daquela parcela que tem acesso ao objeto de desejo e ao conforto. 


Então como lidar com estes sentimentos? Como encarar a nova realidade ao voltar para o nosso país? É esta a discussão que quero apresentar com a nossa entrevistada de hoje, a querida Lidia do blog Calma! Tô Quase Pronta!



A Lidia esteve no Japão pela primeira vez em 1997 com apenas 7 anos de idade. Acompanhando sua família, Lidia iniciou uma nova etapa da sua infância num país totalmente desconhecido por ela até então. E nestes 16 anos, nossa entrevistada retornou ao Brasil apenas três vezes, sendo a última por definitivo, em 2011. Os anos passando, a idade avançando e o lado profissional estagnado foram fatores preponderantes para que a Lidia resolvesse lutar no Brasil por uma vida melhor. E hoje, estudante de Design Gráfico, Lidia consegue enxergar perspectivas promissoras para seu futuro, coisa que até então estava adormecido no Japão.


Clube da Nécessaire: Lidia, por que você decidiu retornar ao Brasil?
Lidia: Decidi voltar porque achei que já estava na hora de resolver o que fazer da minha vida, não queria passar anos e anos trabalhando em fábrica! Queria estudar e ter uma profissão.

Clube da Nécessaire: Como foi a sua adaptação logo que você chegou? Se acostumou fácil aos preços das coisas, poluição, violência e tudo mais?
Lidia: No começo a gente sente aquele choque, né! Trânsito, poluição e nem me fale dos preços... Era tudo aquilo que me falavam, tudo é caro, desde roupa a comida! Fora o medo que sentia da violência no começo. Andava sempre atenta, segurava bem a bolsa, procurava voltar cedo para casa... 
No começo foi difícil, achei que nunca iria me acostumar, mas com o tempo acho que me adaptei bem. Mas, vira e mexe fico revoltada com algumas coisas que acontecem e logo me bate saudades do Nihon.

Clube da Nécessaire: E sobre a questão de emprego e estudos, como foi para você? Foi fácil conseguir um emprego? Ter estado no Japão alguma vez te atrapalhou ou te ajudou em alguma entrevista de trabalho? (muita gente que volta para o Brasil sofre preconceito na hora de procurar trabalho por ter morado tanto tempo fora e não ter experiência nenhuma)
Lidia: Arranjar emprego está bem difícil e acho que atrapalha um pouco sim ter estado tanto tempo no Japão trabalhando em fábrica, já que a maioria das empresas no Brasil exigem experiência. E geralmente quem vem do Japão só tem experiência em fábrica mesmo, o que torna mais difícil de arranjar outro tipo de serviço.
Agora estudos, eu pesquisei bastante e corri atrás, mas também não é nada barato!




Clube da Nécessaire: Ainda falando sobre emprego, você trabalhou na rede Sukiya, muito famosa aqui no Japão e agora um sucesso no Brasil. Como foi esta experiência para você?
Lidia: Trabalhei uns 8 meses e a experiência com certeza foi boa. Aprendi muito lidando com as pessoas daqui do Brasil e acho que me “libertei” trabalhando com atendimento. Eu sempre fui muito "na minha", quieta, mas quando a gente chega aqui tem que ficar mais esperta, saber dar respostas. Temos que saber com quem estamos lidando, porque tem muita gente que se aproveita dos outros.  Às vezes temos que agir como "egoístas", porque ninguém pensa no próximo aqui, o que é muito triste. Apesar de que em qualquer lugar nós precisamos estar "espertos" mas aqui a gente vê coisa pior, eu penso.

Clube da Nécessaire: Do que você sente mais falta do Japão?
Lidia: De tudo! Da educação da pessoas, trânsito calmo, preços, farmácias(rs), lojas de conveniência... de tudo mesmo.

Clube da Nécessaire: Qual conselho você daria para quem está pensando em voltar para o Brasil mas tem medo de não conseguir se acostumar?
Lidia: Olha, tem que voltar com aquele mesmo pensamento de quando você vai pro Japão no começo. Ir para batalhar mesmo, porque aqui não esta fácil. Tem que correr MUITO atrás das coisas, ter contatos, estudar e tentar se atualizar em tudo. E não vai ter jeito, sempre vai existir a comparação entre Brasil e Japão, mas se você realmente quer voltar e tentar a vida aqui, tem que vir com esse objetivo e lutar por ele!

Clube da Nécessaire: Falando sobre cosméticos, teve algum produto que você se arrependeu de não ter comprado para levar para o Brasil? Algum item que você poderia ter comprado mais barato no Japão para levar embora mas acabou não comprando?
Lidia: Nossa, tem muitos sim. Produtos importados como MAC, Chanel e Dior, por exemplo, por mais que seja caro no Japão, valia a pena ter trazido, porque aqui realmente sem condições de comprar. O salário é muito desproporcional aos preços dos produtos. Desde cosméticos a roupas e calçados. Deveria ter trazido mais cílios postiços também, acho que aí tem mais modelos variados e naturais!

Lidia muito obrigada por compartilhar conosco sua experiência de retorno!

E aguardem pois teremos muitas entrevistas aqui no Diário de Viagem Entrevista!!!

Um beijo,

11 comentários:

  1. Oi Amanda!
    Fiquei muito feliz em participar aqui do Clube! Achei interessante vc abordar sobre esse assunto, pois é do interesse de muitos aqui do blog.
    Um grande beijo!

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    1. Lidia obrigada desde já por dividir sua experiência conosco. Certamente retornar ao Brasil não é uma etapa nada fácil, exige muita determinação e perseverança e fico muito feliz que você foi bem sucedida nestes aspectos! Estamos torcendo muito pelo seu sucesso no nosso país!
      Um grande abraço querida!

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  2. Adorei a entrevista meninas
    A Lidia é uma fofa!
    Eu morei somente dois anos no Japão e realmente é inevitável a comparação
    beijos

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    1. Dea a Lidia é uma querida mesmo! Você por ter morado aqui sabe bem do que falamos quando o assunto trata de comparação, ganhos e estilo de vida. Infelizmente a realidade no Brasil é bem diferente da que vivenciamos aqui e muitas vezes isso causa medo pois mudanças sempre são difícieis não é mesmo?!

      Obrigada e ótima semana querida!

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  3. A lídia tem razão em tudo que fala entre Brasil e Japão. Tudo aqui é muito caro e desproporcional com o salário do brasileiro, realmente um absurdo; e as lojas de cosméticos no Japão são um sonho pra mim.

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    1. Realmente Maria, se formos colocar na balança quanto que um brasileiro ganha em média e quanto paga para viver é algo que até nos desanima. Infelizmente, como vc disse é totalmente desproporcional...

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  4. Oii !
    Achei muito interessante a entrevista! Eu não moro no Japão, mas moro em Portugal faz 12 anos e toda a vez que eu vou pro Brasil o preço das coisas me assustam, principalmente da comida. Eu penso em voltar, só não sei quando hehehe
    Continuem com as entrevistas que vai ser muito bom!

    Beijão

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    1. Olá, que legal saber a opinião de uma brasileira que mora em Portugal! Muito interessante ver que todos que moram fora do Brasil acabam tendo o mesmo sentimento quando retornam ao nosso país e se deparam com os preços das coisas, rsrsrs!

      Beijos

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  5. Espero que quando eu voltar eu consiga não entrar em conflitos sobre a diferença drástica de educação. O resto é tudo de bom né temos a família pertinho!

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    1. Concordo Makie, nada melhor do que a família por perto!♡

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  6. Olá Amanda, ótimo texto e que linda entrevista. Esse é um assunto interessante e um dilema para nós que moramos aqui e queremos um dia voltar a viver no nosso país. Com certeza é uma nova batalha voltar a morar no Brasil. Torcendo para que tudo dê certo para a Lídia nessa nova etapa da vida dela no Brasil.
    Beijos
    Jaque
    http://aaventuracomeca.wordpress.com/

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